O estranho caso das emas anárquicas

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2016 foi bem bizarro, entre os diversos acontecimentos insólitos do ano, um que não saiu da minha cabeça foi isso ter saído na seção de política do estadão:

Depois de perseguirem cachorro de Dilma, emas correm atrás de cão de Michelzinho

Inspirado pela relevante notícia eu escrevi um conto imaginando como este tipo de registro seria interpretado em um futuro longínquo, acabou indo um tantinho além disso, mas acho que tudo bem.

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O estranho caso das emas anárquicas

Há, entre os estudiosos políticos da atualidade, discordâncias em relação a motivos e causas que levaram à derrocada humana e consequente ascensão das aves ao poder no Brasil. Fenômeno este que tornou o então caótico país tropical em uma nação próspera e pacifica, modelo para o restante do mundo, que em pouco tempo veio a aceitar nosso posto enquanto casta dominante. Apesar das supracitadas discórdias, já é bem estabelecido na academia que esta mudança ocorreu por volta do século vinte e um da era humanista ocidental.

Antes de mais nada, é preciso ressaltar a dificuldade em se estudar tão longínquo período, considerando que a maior parte dos registros históricos se perdeu devido a uma série de motivos, dentre os quais destacam-se:

-> Diversas informações dúbias e contraditórias para um mesmo acontecimento, visto que o humano médio tem sérias dificuldades em distinguir fatos de suas opiniões, assimilando destes meramente o recorte que lhes interessa. Fenômeno que veio a ser conhecido algum tempo depois como Dissonância Cognitiva do Telencéfalo Inchado, ou apenas DCTI, tipicamente encontrado na espécie humana.

-> Restam também, poucos registros físicos, visto que o período marca o início do fim da palavra escrita no material conhecido como papel (versão aprimorada do papiro, usado por humanos anteriores à era humana ocidental) que veio a ser substituída pelos registros digitais em diversos formatos, muito práticos para o uso diário, mas pouco confiáveis a longo prazo*. (Ver: A obsolescência programa. Um estudo do ser humano e o imediatismo,  Cap.3, seção 3)

Apesar destes fatores, diversas descobertas arqueológicas deste último século nos permitem traçar uma narrativa de nossa ascensão com relativa fidelidade. Sabemos, por exemplo, que um fator determinante foi a existência, àquele período, de diversas aves que agiam e se comunicavam como humanos, sem que seus pares mamíferos fossem capazes de captar a real forma destes, vide supracitada referência à sua condição de dissonância cognitiva. Alguns homens daquele tempo chegaram a temer uma suposta organização secreta a qual conheciam apenas como Reptilianos. Mas suas hipóteses em relação a ela eram disparatadas, nunca chegaram a desconfiar de qualquer ave infiltrada em sua sociedade, visto que poucos compreendiam que aves são répteis, sua desconfiança recaía completamente sobre nossos irmãos terrestres, os quais preferiam apenas continuar tomando sol.

Este período primordial, como já dito, envolto em controvérsias, abriga um episódio peculiar, que ficou conhecido como “O Ataque das Emas Anarquistas”, as quais por meio de sistemáticas investidas fizeram iniciar o declínio da ordem vigente. Registros jornalísticos da época narram as ofensivas iniciais contra os presidentes e seus cães (literalmente) de guarda. O primeiro foi o canino pertencente à então presidenta* Dilma Vana Roussef, que após sucessivos assaltos veio a falecer, sepultando seu mandato com uma renúncia e fazendo com que o vice-imperador brasileiro Michel Miguel Temer Lulia** viesse a assumir seu posto. (*Forma feminina antiga para Imperador regente) (**Sobrenome da dinastia vigente naquele período, iniciada pouco antes pelo Imperador Inácio Lulia, esposo de Dilma Vana.)

Não tardou para que os cães que guardavam o príncipe herdeiro também fossem atacados,  este que ostentava nome idêntico ao do pai, costume comum entre humanos. (Ver: Ego, um estudo da relação humana com sua auto-imagem, Cap 1, seção 39.) Pouco ainda se sabe sobre as Emas, seu modo de viver à época e mesmo quais as raízes de seu movimento anti-governo, mas sua ação foi de tal modo devastadora que a partir do início de seus ataques, os ministros de estado brasileiro começaram a cair um a um, culminando também na queda do então vice-Imperador.

A essa altura diversas perguntas devem surgir na mente dos que me leem, pouco acostumados com termos como “anarquia” ou “presidente”. Para explicar melhor a situação, vamos voltar ao ano de 2016 da era humana ocidental. Naquele período o Brasil, assim como boa parte dos países do mundo, vivia em um regime conhecido como democracia representativa, no qual a população escolhia determinados indivíduos para que tomassem as decisões importantes na sociedade, a ideia que pode nos parecer estranha era bem comum para seres humanos, que tinham como uma de suas características proeminentes a necessidade de que outros assumissem suas escolhas e responsabilidades. (Ver: Teoria política humana, a tara pelo tirano, Cap. 2, Seção 17)

Neste sistema, o Imperador Regente (poderia também ser Rei ou Presidente, dependendo do regime), principal governante da nação, opera com o auxílio dos ministros (um tipo de secretário) e é fiscalizado pelos Senadores (uma assembleia de anciãos), há ainda a câmara dos deputados (um tipo de baixo clero), onde as ideias ignóbeis são exibidas de forma grotesca para deleite e instrução da população em uma espécie de catarse rudimentar.

Anarquia é a oposição total a tais estruturas formais de representatividade. Visto que elas falham miseravelmente em sua própria manutenção a longo prazo, quanto mais em atender aos anseios da população, que por sua vez esperava dos representantes a total resolução de seus problemas em troca de um afago quadrienal. A Anarquia lembra bastante uma forma primitiva do nosso modelo de autogestão Aviária, há inclusive quem veja esta relação como uma evolução natural. A estranheza que sentimos ao pensar no poder centralizado em um presidente, rei ou imperador apenas corrobora o quão bem sucedido é o sistema atual.

Entendido isso, voltemos à narrativa histórica. Após ofensivas à guarda canina do príncipe foi questão de tempo até que seu pai viesse a renunciar e fugir com a família. Estudiosos afirmam que este ataque coincidiu com a chegada do verão no hemisfério sul e consequente entrada das aves migratórias na região. Ainda não é possível afirmar se foi um evento fortuito ou parte de um planejamento prévio, mas há estudos que apontam nesta direção. A guarda imperial brasileira, chamada à época de “Dragões da Independência” – que apesar do nome era formada por simples humanos em uniformes pouco funcionais – não pôde conter a horda de aves que começava a invadir a cidade em um ataque que, embora não inédito à humanidade* varreu facilmente sua presença do Palácio Imperial Brasileiro do Sol Nascente, ou apenas Palácio da Alvorada. (*Fato semelhante já havia sido registrado cerca de meio século antes no documentário “Os Pássaros” do diretor humano-americano Alfred Hitchcock)

Pode parecer frívolo para os mais jovens repensar esses tempos, primitivos, muito anteriores à ascensão da Ave Primeira, que deu início a esta nova era. Entretanto é possível que fatos tão conhecidos e celebrados jamais viessem a ocorrer sem a coragem daquele grupo de Emas. É importante lembrar que as aves, bem como outros animais, viviam marginalizados à época, muitas vezes aprisionados ou abatidos para diversão e/ou alimentação humana. Por mais que pareça absurdo, isso um dia foi verdade: criaturas que não possuem sequer uma pelagem adequada, incapazes de sair do chão sem utilizar de artifícios, cujo único trunfo era um par de polegares opositores, nos escravizaram. Não ignorarmos este período é essencial para evitarmos que ele volte a ocorrer.

Após a invasão ao palácio e subsequente dominação, o grupo de Emas passou um longo período acomodado no local. Os Senadores e deputados não sabiam o que fazer, sua autoridade diluía-se a olhos vistos. Todo o aparato de mídia humano noticiava estupefato o acontecimento. Após pouco mais de um mês o exército brasileiro invadiu o local com armamento pesado e táticas de guerra. Entraram disparando projéteis flamejantes repetidamente. As lendas contam que apenas uma Ema fugiu, e esta espalhou por todo o país o que acontecera ali. Devo ressaltar que não há qualquer evidência deste acontecimento e que é tido como mais provável que a própria mídia humana tenha feito o trabalho de divulgação, visto que para soldados humanos disparar indiscriminadamente entre criminosos e inocentes suas armas de fogo era prática comum, logo não houve qualquer constrangimento em noticiar sua atitude.

Mas já era tarde para as pessoas do Brasil. A inspiração veio para todas aquelas aves que escondiam suas identidades e conviviam entre os humanos. O movimento foi lento e gradual, mas contínuo e ininterrupto. Aproveitando-se da, também já citada, dissonância cognitiva humana, o controle foi sendo tomado de grão em grão, debaixo de seus bicos diminutos. Quando os humanos deram por si, sua nação já era outra, mais verde, mais bela, menos personalista, menos dependente de supostos grandes salvadores, onde mesmo os humanos podem viver pacificamente desde que não voltem a despertar seus fetiches por golpes de estado e tiranias.

Trecho retirado de: “Estudos complementares da pré-história Aviária” por Oswaldo Pepeye. Publicado no dia 18 de Plumário, de  2789 da Era Aviária.

O lado do bem

Parece que um dos assassinos que foram bater em uma transsexual e acabaram espancando até à morte o ambulante que partiu em sua defesa alegou ser “do bem”. Justo. Inclusive, muito justo. Nada na história da humanidade justificou tantas atrocidades quanto pertencer ao lado do bem. Augusto Pinochet, Emílio Garrastazu Médici, Fidel Castro, Stalin, Hitler, todos tinham a certeza de estar do lado do bem.

O ano tá acabando, e se eu pudesse pedir só uma coisa pra 2017, é que a gente pare de ter tanta certeza de que somos “do bem” e comece a ser do jeito que a gente é de verdade, com impulsos egoístas, desvios de caráter e a coisa toda. Até porque só enxergando de verdade todas essas nossas falhas é que a gente vai poder parar de fazer merda em nome do maldito bem.

Aquarius e o direito à memória.

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Fui assistir Aquarius meio com receio, o último filme do diretor Kleber Mendonça Filho, o elogiadíssimo O Som ao Redor. Foi-me bem frustrante por sua pretensão estilística, com fracas atuações e direção de cena. Ainda assim, quando soube que o dever de todo cidadão de bem era boicotar o filme, me vi na incumbência de boicotar os deveres do autoproclamado cidadão de bem e fui ao cinema.

Aquarius narra o embate entre duas forças: O progresso, por meio da destruição e posterior reconstrução, e a resistência a ele. O primeiro dá as caras já nas fotos que abrem o longa, nas quais antigas paisagens de praia, quase a sugerir um passado idealizado, vão perdendo espaço para os prédios e suas sombras imponentes sobre a areia.

No filme, o papel da destruição cabe à construtora Bonfim engenharia (bom fim, sacou?) e seus representantes Geraldo (Fernando Teixeira) e principalmente seu neto Diego (Humberto Carrão). Já Clara, vivida por Sonia Braga é o retrato dessa resistência, tanto na cicatriz que marca a mama perdida para o câncer que venceu, quanto nos longos cabelos que a distanciam simbolicamente dos tempos da doença. Contudo, estes impressos em seu corpo não são os únicos signos de sua luta presentes na trama, estão expostos seu apreço pelo contato com os filhos, os discos de vinil, o armário que carrega memórias que nem suas são, mas principalmente seu apartamento no Edifício Aquarius, que guarda em suas paredes as lembranças de um passado que Clara resiste em deixar evanescer.

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O filme deixa claro que o antagonista não é necessariamente o novo, a personagem Clara se enquadra em um arquétipo “progressista”, sua influência familiar, já exposta no primeiro ato, é a favor da liberação sexual, apoia seu filho homossexual, valoriza as lembranças que carrega o vinil, mas não se importa de ouvir mp3. Logo, não se trata de algum tipo de conto conservador. O antagonista é o motor do progresso desordenado que atropela tudo que estiver no caminho do lucro, seja a paisagem idílica das praias ou antigos prédios em área nobre.

Apesar de se opor à força destruidora do capitalismo, Aquarius põe no centro da trama uma mulher de classe alta, que mora na beira da praia e tem empregada todos os dias, um luxo que famílias de classe média tendem a dispensar. Enquanto sua resistência à construtora sem escrúpulos é essencial ao enredo, a sobreposição e eventual deglutição das precárias construções periféricas por grandes prédios espelhados é vista en passant em momentos específicos e depois relegada ao segundo plano.

Caso viesse a ceder aos assédios da construtora, Clara seria ressarcida e poderia buscar seus direitos na justiça. Para a periferia cabem as remoções por parte de corporações, do estado, ou ambos, sob a égide do progresso. A disputa em Aquarius permanece nos setores mais altos da pirâmide social, o direito a resistir ao progresso para o benefício de suas memórias, prejudicando inclusive os moradores que escolheram abdicar do prédio, é um privilégio burguês. Ao subúrbio cabe a resignação, o desfecho de seu enredo já é mais do que conhecido.

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Por outro lado, enquanto obra cinematográfica, Aquarius é excepcional. Sua narrativa funde com primazia elementos e significados em cenas e personagens. Sonia Braga é a estrela maior. Em atuação excepcional, constrói sua personagem Clara dotada de signos muito bem aplicados, dos quais destaco a vitória sobre câncer enquanto credencial de sua resistência, e seu “retorno”, marcado no título de terceiro ato. Ainda a solidão de mulher viúva, cujos filhos vivem longe, morando em um prédio semi-abandonado, bem demarcada nos planos da narrativa visual. Também acho digno lembrar de Humberto Carrão, como Diego, afavelmente detestável em seu discursinho empreendedor e seu modo passivo-agressivo, como requer seu papel.

Por fim, apesar de ser um drama de classe alta que talvez se enxergue como classe média, recomendo Aquarius enquanto grande obra cinematográfica no tão subestimado cinema brasileiro, inclusive, fez-me  pensar se deveria dar nova chance ao O Som ao Redor.

1356 -um Cornwell puro sangue

1356Reler um bom autor após um longo tempo é como reencontrar um velho amigo, novas histórias, mas com um tom já familiar. Foi esta a minha sensação ao ler “1356” de Bernard Cornwell.

O romance retoma a história do arqueiro Thomas de Hookton que, após os eventos da trilogia “A Busca do Graal” tornou-se líder de uma espécia de grupo mercenário, os “Hellequins”.

No livro é narrada novamente a busca por uma relíquia cristã, desta vez a espada “la malice”, supostamente utilizada por Pedro nos evangelhos. Lenda para a qual o autor britânico da sua abordagem característica, no limiar entre fantasia e realismo. Os eventos culminam na histórica batalha de Poitiers, na qual os ingleses liderados por Eduardo, que viria a ser conhecido como “O Príncipe Negro”, enfrentaram as tropas francesas.

No meio disso tudo um ponto curioso, um dos capítulos se encerra com a frase: “E assim, no crepúsculo, Roland chegou à torre negra.” A qual pode ter sido tanto uma piscadela para os leitores da obra de Stephen King, quanto apenas referência ao poema clássico

Author Bernard Cornwall. Photograph by Felix Clay.

É complicado analisar um romance de Cornwell pois invariavelmente as comparações se voltam para sua mais célebre obra: “As Crônicas de Artur”. Especialmente para mim, que tive como primeira contato com o autor britânico a leitura de sua obra prima.

Ainda assim a narrativa de 1356 é cativante, tal qual seus personagens, que fogem à lógica pasteurizada e “limpinha” do que se convencionou chamar de romance épico.  Além disso, a descrição das batalhas é da maneira horrendamente maravilhosa que só o autor sabe produzir.

Por fim, trata-se de um Cornwell puro-sangue, para os aficionados por romances históricos é um must, mas principalmente, para quem busca uma boa leitura épica, farta em quantidade, porém diminuta na qualidade, é definitivamente uma ótima pedida.

Gabriel García Marquez – Fronteiras rompidas pela solidão

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Lembro-me que quando da morte do Gabo, alguém ao comentar o ocorrido, citou que com cada ser humano morre um universo.

Entretanto, para nossa sorte, Gabriel García Márquez nos deixou uma parte considerável daquilo que compunha seu existir nas páginas de Cem Anos de Solidão. Pois tal qual cada indivíduo, cada leitura desta obra é um novo cosmo que se abre.

Se para muitos é o relato da solidão latino-americana, em seu distanciamento das outrora grandes metrópoles, tanto geográfico quanto de seu olhar para a realidade daqui – visão esta reiterada pelo próprio autor em seu discurso ao receber o Nobel de literatura. Para mim sempre foi a mais precisa exposição do que é a solidão inerente à condição humana, que nos faz, a todos e cada um, universos que se por um lado únicos, por outro isolados e intransponíveis.

Ou quase.

Pois se algum ser humano pôde a romper as fronteiras que separam sua existência para atingir a de outro, este foi Gabo, ao me levar a Macondo e refletir a Macondo que trago em mim. No mínimo curioso que o toque a originar esta ligação tenha sido justamente a solidão.

Pois se as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tem uma segunda chance sobre a terra, fico feliz de ter, ao menos, tido a chance de existir aqui no momento exato para conhecer suas palavras.

Obrigado.

Por que gostamos desse tal Stranger Things?

strsanger01A não ser que você viva em uma bolha social muito diferente da minha, provavelmente já ouviu falar de Stranger Things, a série que se passa nos anos 80 e faz referência aos filmes que a gente via na sessão da tarde.

Tradicional produto de nicho, prato cheio para os nerds tarados por esse tipo de intertexto.

Acontece que o sucesso do seriado ultrapassou a barreira deste público, inclusive chegou à primeira colocação na lista de séries mais populares do site IMDB, ultrapassando até Game of Thrones.

Mas por quê? O que faz com que um seriado com tanta cara de enlatado se revele tão bom?

De pronto me vem à mente a semelhança com as histórias de Stephen King – citado pelos próprios autores como referência. Que ao invés de utilizar os personagens como instrumentos para conduzir uma narrativa sobrenatural, utiliza a metafísica presente no enredo como ferramenta para contar a história dessas pessoas e como elas lidam com o fenômeno.

Há também a subversão de vários clichês aos quais a série faz referência. O delegado boa praça é um cara que perdeu a filha e agora toma remédios controlados, a família problemática que aparenta normalidade, os problemas de relacionamento que Jonathan e Will tem com seu pai ausente, o vínculo que a própria protagonista Eleven tem com o Dr. Martin Brenner (O “papai”), que conduz nela seus experimentos,me lembrou bastante relatos da relação que crianças abusadas tem com seus agressores.

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Não obstante que todos os núcleos de personagens sejam dotados de história e profundidade, podemos confiar em todos (com exceção dos vilões óbvios). Talvez aí é que resida a maior parte da nostalgia do seriado. Penso que temos nos acostumado com anti-heróis – quando não simplesmente vilões – protagonizando as séries de maior sucesso, das constantes traições na já citada Game of Thrones a protagonistas como Frank Underwood ou Walter White – que talvez sejam reflexo do nosso tempo, embora eu prefira rechaçar a falácia conservadora. Em Stranger Things a tranquilidade de saber que podemos confiar nos personagens soa quase como novidade, ao mesmo tempo que tão nostálgica.

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Stranger Things é uma série gostosa de assistir, fácil de gostar, que cumpre o que promete e se observada com atenção revela mais do que um emaranhado de referências familiares aparentes em primeiro plano.

Os panos quentes sobre Rio 2016

Não assisti à abertura dos jogos olímpicos, mas pelos comentários parece ter sido espetacular, impressionou inclusive a imprensa internacional, cuja opinião é bastante cara para nós aqui da colônia. Supostamente, mostrou para todos que criticavam as olimpíadas no Brasil a nossa capacidade. Teve mensagem ecológica e mensagem social, foi uma festa inclusiva para pobres e minorias. Pena que estes foram incluídos como atração e não convidados, a eles restou observar de longe ou acompanhar pela televisão.

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Moradora caminha sobre destroços na Vila Autódrome. (Fernando Frazão/Agência Brasil/Fotos Púbrlicas.)

Sem falar nas setenta e sete mil pessoas que foram sumariamente removidas pelo governo, não puderam sequer permanecer onde moravam, para que as obras destinadas ao evento, bem como a festa das empreiteiras, pudessem seguir em frente.

Para além disso, eu poderia relevar tranquilamente obras inacabadas, vila olímpica defeituosa ou quaisquer outras falhas genéricas, vistas em tantos outros eventos. Mas é inaceitável que uma nação incapaz de garantir educação básica com mínima qualidade a seus cidadãos queira sediar eventos deste tamanho. As desculpas, mais partidárias do que ideológicas, costumam ser as mesmas da copa:

  • Um evento dessa magnitude impulsiona o turismo (por UM MÊS);
  • Haverão obras de infraestrutura que beneficiarão toda a população (as quais poderiam acontecer independente do evento  existir ou não)
  • É uma vitrine para o país.

É bom lembrar que o Brasil já vinha pleiteando sediar as olimpíadas desde os anos 90, quando provavelmente os mesmos que agora apóiam criticariam. Desde lá os interessados em um evento destes permanecem os mesmos, grandes empreiteiros e demais empresários que tiram alguma vantagem da situação.

Mais triste é ver gente que tanto defende, com razão, os direitos dessas populações marginais, fazendo vista grossa a estes abusos. Ignorando que, assim como a copa do mundo, as olimpíadas são eventos feitos por uma elite, para uma elite, com recursos provenientes da população. As elites podem discordar em relação ao grupo que permanece no poder, podem até não se reconhecer enquanto elite, mesmo que seus assentos custem mais do que um salário mínimo.

Não é que os jogos se resumam aos pontos negativos, ou que os atletas tenham qualquer culpa e sejam indignos de nossa torcida. Mas por baixo dos panos quentes que puseram na situação estão mais de 70 mil vidas modificadas à força, além de toda a população que pagou por uma festa para a qual não foi convidada.